Reflexão aborda os desafios enfrentados por governantes quando a permanência de aliados passa a gerar desgastes políticos e questionamentos sobre a credibilidade da gestão.
A política ensina diariamente que governar exige, além de capacidade administrativa, a difícil tarefa de escolher em quem confiar. Afinal, aliados são importantes, mas nenhuma amizade política pode ser maior do que a responsabilidade com a gestão pública e com o interesse coletivo.
Em Várzea Grande, ainda nos primeiros meses da atual administração, a prefeita Flávia Moretti adotou um discurso de transparência ao tornar públicas diversas dificuldades encontradas na Secretaria Municipal de Educação, apontando problemas herdados de gestões anteriores. Na época, o então secretário padre Edson conduziu levantamentos e auditorias internas que, segundo informações divulgadas, identificaram inconsistências administrativas que mereciam esclarecimentos.
Com o desenrolar das articulações políticas próprias de qualquer governo, a Secretaria de Educação passou a ser comandada por Silvio Fidélis, figura experiente na política várzea-grandense e reconhecida por sua capacidade de articulação. Paralelamente, observou-se um fortalecimento político de grupos aliados, incluindo o vereador Charles da Educação, que passou a ocupar posição de destaque dentro da base governista.
No entanto, em política, o bônus e o ônus caminham lado a lado. Sempre que surgem questionamentos sobre contratos, despesas ou atos administrativos da pasta, os desgastes inevitavelmente recaem sobre a chefe do Executivo, independentemente de quem seja o responsável direto pelas decisões. É a prefeita quem responde politicamente perante a população.
Nos últimos meses, debates envolvendo gastos públicos e decisões administrativas da Educação passaram a ocupar espaço nas rodas políticas, nos meios de comunicação e nos órgãos de controle. E, diante disso, uma pergunta se torna inevitável: até que ponto vale a pena para um governante assumir sozinho o desgaste provocado pela permanência de um aliado?
Não se trata de condenar previamente ninguém. Em um Estado Democrático de Direito, toda pessoa tem direito à ampla defesa, ao contraditório e à presunção de inocência. Da mesma forma, cabe aos órgãos de fiscalização e à Justiça, e não ao tribunal das redes sociais, apontar eventuais responsabilidades.
Mas a política não vive apenas de decisões judiciais. Ela também é feita de percepção popular. E, muitas vezes, aquilo que é juridicamente defensável pode se tornar politicamente insustentável.
A história recente do Brasil está repleta de exemplos de governantes que acabaram pagando um preço elevado por insistirem em manter ao seu redor figuras que, certas ou erradas, se tornaram foco permanente de desgaste. Quando isso acontece, a pergunta deixa de ser sobre uma pessoa específica e passa a ser sobre o próprio governo.
Vale a pena enfrentar crises sucessivas, desgastes institucionais e embates com órgãos de controle em nome da manutenção de um único aliado? Ou chega um momento em que preservar a credibilidade da administração se torna mais importante do que preservar relações políticas?
São perguntas que não cabem apenas à prefeita responder. Cabem também à sociedade, aos vereadores e a todos aqueles que desejam uma Várzea Grande mais transparente, eficiente e comprometida com o interesse público.
Porque, no fim das contas, nenhum projeto político deveria ser maior do que a confiança da população.
























