A rejeição da Câmara Municipal de Várzea Grande ao projeto que previa o aumento das alíquotas do ISSQN escancarou mais do que uma divergência tributária entre Legislativo e Executivo. A votação revelou uma postura política considerada por especialistas como imediatista e eleitoral, que pode comprometer diretamente o avanço estrutural e econômico do município nos próximos anos.
O projeto encaminhado pela prefeita Flávia Moretti propunha a atualização das alíquotas de 2% e 3% para 5%, percentual permitido pela legislação federal. A proposta foi derrubada por 11 votos contrários e 10 abstenções. Nenhum vereador teve coragem política de votar favoravelmente à medida.
O discurso utilizado pelos parlamentares foi o da “defesa do contribuinte”. Vereadores alegaram que o reajuste seria repassado para áreas essenciais como saúde, educação e transporte, encarecendo serviços para a população. O argumento, apesar de popular, ignora um problema ainda mais grave: a incapacidade financeira crônica da prefeitura de Várzea Grande em realizar investimentos estruturantes e melhorar os serviços públicos.
Na prática, a decisão da Câmara mantém o município preso a uma dependência histórica de recursos do Estado e da União. Sem ampliar a arrecadação própria, a prefeitura perde capacidade de investimento, planejamento e execução de políticas públicas. O resultado é sentido diretamente nas ruas: bairros sem asfalto, unidades de saúde desabastecidas, infraestrutura deteriorada e obras que nunca saem do papel.
Especialistas em gestão pública avaliam que a postura dos vereadores foi politicamente confortável, mas administrativamente irresponsável. Ao barrar uma medida impopular, os parlamentares garantem aplausos imediatos e preservam suas bases eleitorais. Porém, evitam enfrentar o debate sério sobre como financiar o desenvolvimento da cidade.
O Executivo municipal, independentemente de quem esteja no comando, precisa de arrecadação para funcionar. Sem receita, não há como ampliar investimentos em mobilidade urbana, saúde, educação, drenagem, pavimentação ou modernização da máquina pública.
Economistas apontam que municípios que dependem excessivamente de transferências externas possuem menor autonomia administrativa e mais dificuldade para executar obras estruturantes. Em Várzea Grande, esse cenário se agrava diante do crescimento populacional e da pressão cada vez maior sobre os serviços públicos.
A votação também chamou atenção pela ausência de alternativas apresentadas pelos próprios vereadores. Embora tenham rejeitado o aumento do ISSQN, nenhum parlamentar apresentou propostas concretas para compensar a perda de arrecadação ou indicar novas fontes de receita para o município.
Para analistas políticos, a Câmara preferiu apostar no desgaste do Executivo em vez de assumir responsabilidade conjunta pelo futuro da cidade. O resultado é uma conta que continuará recaindo sobre a população, não através de impostos mais altos, mas por meio da precarização dos serviços públicos e da lentidão no desenvolvimento urbano.
A decisão tomada no plenário pode render dividendos políticos momentâneos aos vereadores, mas tende a ampliar os desafios financeiros de Várzea Grande justamente em um momento em que a cidade necessita de investimentos urgentes para superar problemas históricos.

























